Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018

"A apoteose da vontade romântica"

Foto : WSL

Foto WSL

 

Gabriel Medina, o desportista, controla o jogo como qualquer atleta de excepção. Para começo de conversa, e porque é de campeões que se fala, Medina é super competitivo e agressivo quando veste a lycra. Domina quase impecavelmente o surf na sua forma técnica e as condições particulares de cada disputa que enfrenta - o mar, as ondas, o tempo no cronómetro, o adversário e os objectivos em cada momento. 

 

O que isso oferece é uma fórmula que deixa margem para aparecer o personagem que verdadeiramente me interessa - Gabriel Medina, o surfista. Lembremos o cenário para adensar o drama: estamos em Pipeline, a Marianne do North Shore do Havaí e primeira maravilha do mundo do surf, para coroar o Campeão Mundial, para além do Pipe Master e ainda, já agora, o vencedor da Triple Crown (vai e foi Jesse Mendes). Com tudo o que se pode pedir: ondas e competição de excelência, drama no ranking e duckfaces na praia. Julian Wilson vs Gabriel Medina, com Kelly Slater e Jordy Smith no caminho - e mais uns quantos para chatear, entre os quais o novo tocador de piano de Santa Barbara, Conner Coffin. Dizia, enfim, que estamos em Pipeline. Duas em dez ondas podem dar dez. Dez dessas duas podem não dar nada. O mar está incrível; Pipeline abre as portas, Backdoor aperta a saída. Para quase todos, menos para um. 

 

Gabriel Medina, o surfista, é o tipo que em dois minutos e vinte e sete segundos faz um 9,43 para Pipeline e um 10 absolutamente surreal para Backdoor e dá a volta por cima do Conner Coffin nos quartos-de-final para escancarar as portas do seu segundo título mundial. Estes dois minutos e vinte sete segundos são a margem que Medina dá a Gabriel. Ali vê-se intensidade, sentimento, emoção e imaginação; uma entrega completa e quase irracional, no limite do risco e no falhanço - uma confiança cega no talento - que distingue o génio de um tipo meramente muito bom. 

 

Se ser Campeão do Mundo em Pipeline já tinha sido bom, sendo-o vencendo é bom demais. Vencendo como fez, fica para sempre.

 

"A Apoteose Da Vontade Romântica", é um título do ensaio que faz parte "The Proper Study of Mankind", de Isaiah Berlin.

 

 

publicado por manuelcastro às 09:13
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1 comentário:
De Julio Adler a 18 de Dezembro de 2018 às 12:21
Virá
Impávido que nem Muhammad Ali
Virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri
Virá que eu vi
Tranqüilo e infálivel como Bruce Lee
Virá que eu vi...

Obrigado Manel!

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