Quinta-feira, 15 de Outubro de 2015

A minha praia

A minha praia tem um areal infinito de areia branca e macia que corre paralelo junto ao mar, quase sempre de forma linear. Não é muito largo, o areal, mas estica-se todo na maré-vazia, com um declive acentuado que quando a maré regressa oferece ondas perfeitas. Às vezes, quando a maré vaza também mas sobre isso não posso falar porque para tal não fui notificado e não sabia que tinha que falar.

Não me perguntem como é que ali há ondas tão boas; perguntem à Ordem dos Engenheiros. Talvez seja daquela gente que por ali anda na mais vazia das marés a fazer castelos na areia. Na verdade não são bem castelos, são mais pirâmides. Na verdade não são bem pirâmides, são mais triângulos. Com a forma de ondas perfeitas: para a esquerda e para a direita. Mas há melhor, lá ao fundo, do lado direito da praia, onde uma língua de areia entra para dentro do mar. Não se vê bem, porque o calor dissolve a visão numa miragem só para criar um ligeira expectativa de dificuldade onde nada é complicado e tudo soa à leveza transparente do regresso a férias grandes.

A água está quase sempre boa e está quase sempre sol, excepto durante quatro dias e meio por ano. Está quase sempre glass ou um ligeiro vento do deserto que levanta a areia em espiral – e as ondas também. Por falar nisso: há quase sempre ondas e não há quase ninguém, na minha praia. Na minha praia, podemos ir ao surf em calções quase todos os dias. Aliás, podemos fazer quase tudo na minha praia, porque ali há apenas liberdade. Mesmo nos quatro dias e meio por ano em que não faz sol. É a melhor praia do mundo, a minha. Quer dizer, não é bem minha mas quase.

Na minha praia não há confusão, não há bandeiras – só uma, do Benfica – não há apoios de praia ou neo-liberais. Na verdade, há uma série de gente que não seria bem-vinda à minha praia. É por isso também que é um segredo bem guardado. Até gostava de dizer onde é a minha praia mas sobre isso não posso falar porque para tal não fui notificado.

E, na verdade, também não quero.

 

publicado por manuelcastro às 18:58
link do post | comentar | favorito

.arquivos