Sábado, 8 de Janeiro de 2011

Casa

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A. queria sempre  mais; outro lugar, outras pessoas, outras ondas. Procurava qualquer  coisa mas não sabia bem o quê. Viajava, pulava, conhecia, ria, devorava,  espalhava-se, chorava e voltava para ir logo embora outra vez – não  necessariamente por esta desordem. Não parava nem lutava contra o desejo de partir. O ponto de partida era sempre o mesmo: para longe de casa.

Era um querer profundo mas pouco objectivo. Apenas  o desejo inevitável que se sente naquelas pessoas que sabemos que querem estar em todo o lado menos ali, como o tipo que está preso numa reunião com os seus patrões idiotas e tem a mulher à espera no Miradouro da Sofia para aproveitarem o único fim de tarde que podem ter juntos naquela semana primaveril - o mesmo género de excitação, só que sem a reunião e os patrões idiotas, apenas a fúria da liberdade. Até ao dia.

A. folheava uma revista de surf e, duas páginas abertas depois, viu uma daquelas ondas lindas, remetidas do apartado do sublime; uma esquerda doce e picante ao mesmo tempo. Os seus olhos brilharam. “É isto! Era  aqui que eu queria estar.”
Os seus dedos percorreram a página,  acompanhando a forma da onda, tropeçando pelos pontinhos que se  espalhavam ao longo desta, serpenteando até à legenda.

E a onda, escrevia a legenda, era casa. E ele era um dos pontinhos.

publicado por manuelcastro às 23:21
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