Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Em diferido de França

 

Diário de uma viagem. Outubro de 2013. Pré-publicado na Zero Emag

 

Conferência de imprensa do Quiksilver Pro France 2013. À entrada da Boardriders de Capbreton há um ambiente de festa no ar que cedo percebemos que não é ambiente de festa, é mesmo o Sudouest a ser o Sudouest. Media, groupies, locais e indústria — o tour chegou a França mas não deu a volta. Está aqui mesmo. A presença das lendas Jeff Hackman, Tom Carroll e Martin Potter, em jeito de mestres de cerimónias não oficiais, lembra-nos que a idade até pode não passar por eles, mas por nós passa certamente.

Miky Picon, director de prova, e Jeremy Flores, esperança francesa e europeia para vencer o Quik Pro, dão as boas-vindas, e abrem caminho à conversa com os wildcards do evento. Entre esses, é o italiano poliglota Leonardo Fioravanti — o primeiro italiano a participar numa prova do WT — a dar cartas, com todo o seu entusiasmo. O homem de Les Ouvres, Monsieur Marc Lacomare, outro dos convidados, revela-se seguro e focado nos seus objectivos e afirma, em tom grave e determinado, querer levar a bandeira de França bem alto. Ao lado, e daqui do lado — Zarautz — vem Aritz Aranburu, o guerreiro basco que está perto de regressar ao Circuito Mundial em 2014, depois de vários meses a surfar em algumas das ondas mais remotas do planeta.

Dane Reynolds falta à antecipação do evento — “teve um pequeno acidente”, dizem — mas Jordy Smith e Mick Fanning surgem bem-dispostos, tranquilos e descontraídos, perante as perguntas de Potter e Nicolas Dazet, director de marketing da Quiksilver. No ecrã da loja, colocado bem lá no alto, passa “Slow Dance” e ninguém evita olhar para o surf estilizado de Ando nesta produção do ausente Reynolds. Torcicolos à parte, enquanto Mick fala, animado, sente-se um pequeno burburinho, enquanto uma figura de traços alienígenas entra na sala. É Kelly Slater, que avança pela multidão, cumprimentado os adversários na contenda pelo título mundial antes de se sentar. Fanning cerra a expressão e levanta o queixo — vocês sabem — enquanto Jordy já só vê o “Slow Dance”. Kelly senta-se e diverte-se a fitar olhos nos olhos toda a gente que está à sua frente, enquanto vai segredando qualquer coisa a Mick, e sorrindo com uma intenção imperceptível. Ao meu lado, Sara, a única jornalista portuguesa a acompanhar o Circuito Mundial de Surf, pergunta-me se não estou a ver os olhos dele a enviar “raios” em todas as direcções da sala. “O quê?,” pergunto, invisivelmente ofuscado.

E assim, ainda antes de chegar à praia, às multidões e às ondas, começou o Quiksilver Pro France. A ferver por entre silêncios desconfortáveis e sorrisos maléficos.

 

* * *
 

Em modo desportivo, todo vestido de escuro, com umas meias brancas, e em pleno pendant (qual pandã, isto é França, pá) com a sua namorada e entourage, Dane Reynolds chega à praia completamente deslocado mas a transpirar o próximo grande estilo. Um pouco pesado, é certo, mas nesta que poderá ser a sua última vez a competir na Europa parece pouco afectado seja com o que for. Com certeza que há um vídeo novo na forja; a França é muito propícia a vídeos do Dane Reynolds. Todo este ambiente je ne sais quoi, não é?

Entrando noutro fuso horário, embora os franceses saibam claramente que a vida é muito mais do que horários, compromissos e agendas, não há tempo a perder para começar o Quiksilver Pro France 2013. A água já tinha chegado à boca dos melhores surfistas do mundo, que viram as suas colegas mulheres apanhar ondas incríveis nos dias anteriores.

La Graviére, a onda diante da qual está montada a estrutura principal deste evento, está apenas a um quarto de gás e, depois das senhoras, Le Penon continua a ser a aposta da casa. Situada a norte de Hossegor e já em Seignosse, depois das internacionalíssimas Les Estagnots e Les Bourdaines, Le Penon recebe-nos com um skate park à entrada e um parque aquático à ilharga. Para além disso, temos alguns empreendimentos turísticos e restauração. Subindo a duna voltamos a confirmar que o mais importante na Costa de Les Landes é o mar, a floresta e a Natureza (lá iremos mais tarde). As únicas construções na praia são um pequeno apoio para os serviços marítimos e um barzito recheado de simpáticos e asterixianos personagens locais, onde não se paga nada mal por cada pedaço de nada mas onde os croissaints são à borla. Não é contradição; é só preciso entrar no espírito.

Chegando ao topo da duna, para norte, a paisagem é a mesma até onde a vista alcança: areia e mais areia, numa costa recortada em subtilíssimos ziguezagues e recheada de bancos de areia, numa conspiração geográfica costurada à medida de surfista. Para sul, ao longe, o cenário é fabricado nos sonhos pela abrupta e incrível costa basca, com os Pirinéus a perder-nos a vista. É o magnífico Golfo da Biscaia em todo o seu esplendor. Depois do deslumbre, enquanto vamos aproximando o olhar, voltamos à areia e mais areia…A cada quilómetro há uma onda óptima a funcionar mas é a duzentos metros dali que a princesa — com a devida vénia à República Francesa e às suas extraordinárias representações — está. Triangular e perfeita, a partir com metro e meio para o primeiro dia do Quiksilver Pro France, ligeiramente menos no segundo dia.

Não se pode considerar que a garra com que Ramzi Boukhiam e Aritz Aranburu (este com o duelo mais emocionante do primeiro dia e uma tremenda prenda para os bascos presentes) surfaram foi uma surpresa mas, para além destes, os holofotes destes dois primeiros dias só podem estar em Gabriel Medina. Goste-se ou não. Muito, muito surf — o melhor dentro e fora do campeonato — e menos uns quantos dólares na conta depois da brincadeira para os juízes na sua bateria da segunda ronda. Quanto aos favoritos Kelly, Fanning, Jordy, Mineiro, Jeremy, John John, Taj e Bourez, com maior ou menor dificuldade estão exactamente onde queriam estar neste momento: na terceira ronda do Quiksilver Pro France que poderá recomeçar terça-feira.

Quanto a Dane, teve azar. Apanhou Slater na primeira ronda e Jordy na segunda. Um 8.5 e um 12 como pontuações totais não são muito condizentes com o valor do melhor surfista do mundo (depois do galáctico KS, entenda-se). Mas com certeza que há um vídeo novo na forja; a França é muito propícia a vídeos do Dane Reynolds… Todo este ambiente je ne sais quoi, não é?

 

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Parisien. O nome daquela baguete nem me fez hesitar. Só pelo nome, parecia-me que classe era um dos ingredientes e já imaginava encontrar a Marion Cotillard numa rua do Quartier Latin. Os franceses sabem-na toda. Lembremos “Royale with Cheese” e o “Le Big Mac”. Pequenas diferenças. Mas aquela era só uma baguete com fiambre e queijo. Um pouco como La Graviere hoje.

A menina dos olhos de Hossegor foi o palco da reentrada em cena do Quiksilver Pro France 2013, que esteve assim, pela primeira vez, diante da magnífica estrutura principal. A escolha podia ter sido outra, vai-se dizendo. Confirma-se que há ondas em todo o lado, o que, no mínimo, valoriza a dificuldade da selecção para a direcção de prova, a cargo de Mikael Picon. O dia amanhece nebulado, num disfarce perfeito para o que aí vinha. A chamada para hoje já tinha valor acrescentando, sabendo-se da sumarenta ondulação que estava a caminho. Desidratada desde muito cedo, a enchente na praia é apanhada na armadilha do calor que vai caindo em cima das milhares e milhares e milhares de cabeças presentes. Não há filtros que protejam da força do sol e da temperatura abrasadora. E também não os há dentro de água: é aquilo que é. Ondas de dois metros, algumas muito mais, algumas muito menos, partem em triângulos de vertigem. Umas vezes perfeitas, outras nem tanto. Ninguém quer saber; depois de vários dias de miragem o que se quer ver é surf de primeira e é isso que estes senhores oferecem, ali mesmo, a poucos metros de distância da areia. #meteparadentro. Na festa de boas-vindas a esta ondulação, o banco de La Graviere não está no seu melhor e adaptação é o nome do meio do jogo do tudo ou nada neste Quiksilver Pro France, a caminhar a passos largos para o juízo final. Dá para tudo e, às vezes, para o tubo. Dá para aéreo, mas também pode dar para não dar nada — que o digam Adriano de Souza e Jeremy Flores, que deram tudo e saíram com nada.

Sem Flores, Ramzi Boukhiam e Michel Bourez assumem o estatuto de favoritos da praia, embora o favorito, na verdade, seja o bom surf e os aplausos e celebrações sejam para todos. Ramzi, versus Mick, ainda fez um belíssimo tubo que lhe rendeu um 9.17. Insuficiente para um Fanning claramente em modo tempo de decisões. Bourez, por seu turno, deu um ar da sua graça e salvou a honra do convento — até porque as amáveis freiras não apareceram hoje na praia. Brasa na praia, nem tanto de Brasil. Dia de meia-bomba para o país irmão, com as derrotas prematuras de Adriano e Migel Pupo, compensadas pela estrela altíssima de Filipe Toledo — com um dez que não foi dez — e do suspeito do costume, Gabriel Medina, este já quando, depois de uma interrupção de várias horas, um novo call coincidiu com as melhores ondas deste Quiksilver Pro France. Chave dourada, como o fim de tarde, e a fechar o dia, para Kai Otton, que saiu incólume de dentro duas implacáveis placas de água, uma delas a poucos segundos do fim para seguir directamente para os quartos-de-final, deixando Parko e Taj a pensar na vida diante do plácido anoitecer de Les Landes, num momento de pleno contraste com um eufórico dia de competição.

Quanto a Kelly, depois de anos a fio em pleno estado “it’s complicated” com a Europa, já percebeu as “pequenas diferenças” do Velho Continente e o quanto e como nestas pode cavalgar. Depois da corrida do costume uns bons passos de corrida à frente da simpática equipa de segurança francesa até chegar à água e umas quantas chapadas na água, fez quanto baste face a Aritz Aranburu. Tem sido uma rotina simples e, para já, vai chegando. O Sr. Canaveral, sabe que França, este ano, será um pouco como a tal baguete com queijo e fiambre. Com o título mundial em disputa, chame-se La Graviere ou Le Penon, é para comer. Leia-se, ganhar.

 

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Ziz zouthwest zwind is shait (pausa para entrar uma qualquer música de Serge Gainsbourg). Elsa Kikoine está à minha frente e pergunta-me o que quero beber. O esforço para beber um refrigerente vale a pena. Orange ou peach? Peach, claro, respondo com o indicador na sua direção. Thank you very much, respondemos ao mesmo tempo, naquele que julgo ser o sinal que faltava. O casamento está marcado para amanhã. Pode ser na igreja de Notre-Dame-Des-Dunes, ali mesmo, depois de La Centrale. Os meus pensamentos são interrompidos pelo sósia australiano do Jack Black, que imita algo parecido com o officer Crabtree mas em versão a Ressaca. Ziz zouthwest zwind is shait!

O dia abre com ondas mais pequenas que o dia anterior, estilizadas por um offshore suave que abre o apetite para o pequeno almoço da maré vazia. Apesar do bom aspecto, as bombas teimam em não aparecer. Só para Michael Bourez, com um dez perfeito depois da bateria acabar, e para Julian Wilson e Gabriel Medina, como que em homenagem ao seu cada vez mais lendário picanço. Já só restam os melhores surfistas em prova mas, de repente, ziz zwind chega para estragar tudo. Filipe Toledo, Kelly Slater, Gabriel Medina, Joel Parkinson, Mick Fanning, John John Florence, Julian Wilson e Kai Otton, são os últimos oito homens no Quiksilver Pro France. Pela tarde e depois dos putos maravilha no King of The Groms, o vento parece acalmar um pouco, mas não o suficiente para os quartos-de-final avançarem para a água. Avançou Medina, com uma Go Pro na boca e aéreos de deixar os queixos caídos a uma praia a transbordar expectativa europeia. John John também quer brincar e faz um tubo gigante numa onda que fechou um horizonte onde chove ao longe. Dois intensos relâmpagos, estes meninos com surf de barba rija, na noite que vai caindo com raios e coriscos a sufocar as nuvens em tudo quanto é céu. E finalmente a chuva desaba no tempo húmido de Hossegor a brincar aos trópicos.

Sim, ziz zouthvest zwind is shait. É que nem bom vento, nem bom casamento.

 

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Le Penon, oito e meia da manhã. Na ressaca de uma tempestade eléctrica. Os sinais da intempérie estão por todo o lado mas isso é o menos. As ondas em La Graviere, cinco quilómetros a sul, mostram poucos sinais de vida e a decisão é levar o dia final do Quiksilver Pro France 2013 para o palco alternativo do evento, em Seignosse. A praia está nua e, em toda a sua beleza e fragilidade, faz-nos questionar sobre até que ponto será possível que tudo isto corra bem. O interminável areal está completamente deserto e o mar confunde-se com o céu num horizonte em tons de cinza escuro. Nuvens carregadas de chuva pairam ao sabor do vento fraco, até desabarem num dilúvio implacável. Na dança da chuva, dentro de água, três silhuetas — as únicas — desfazem ondas ainda pouco promissoras a quebrar muito longe da linha da areia. Mick Fanning está na água.

Seis horas depois, o cenário muda dramaticamente. A estrutura do Quiksilver Pro France surge impecavelmente preparada e uma imensa corrente humana alinhada junto à linha de água salpicam a praia com cores de todo o mundo; está quase tudo pronto e a música vai dando o tom para o último dia de festa no Sudoeste de França. A maré cheia acertou o mar e, afinal, é possível que tudo isto corra bem. O limbo francês é magnífico! O ambiente de exaltação na areia contrasta com o ambiente de tensão na zona de todas as decisões. Festa?

Kelly Slater desce incógnito pela duna e sai de prova escoltado pela competência competitiva e entusiasmo criativo do soberbo Filipe Toledo. Medina faz a folha, num avião de papel, a Julian Wilson. Parko dá ares de quem pode, frente a Kai Otton, mas não consegue, perdendo para Fanning na meia-final que reeditou a final do Quiksilver Pro France 2006. Quanto a Mick, estava noutra. Noutra final, claro. E que melhor adversário do que Gabriel Medina? Mediná, Mêdina, Gabe…ao melhor jeito It’s A Bird, It’s A Plane, It’s Superman, o sotaque vai variando mas o nome do prodígio de Maresias é o que mais sopra no ar por entre os milhares que assistiram ao Quik Pro.

Enquanto o brasileiro se coloca à frente da multidão, contido nas suas preces, mas sacudindo o corpo de quando em vez, naquela sua vontade intensa de ir para dentro de água, Mick continua noutra. Como de manhã, com a praia deserta. Como se não estivesse ali ninguém, numa bolha só sua. À sua volta estão dezenas de pessoas mas tudo junto a si era silêncio nesta praia agora repleta. Sentado, junto à água, ouvia-se só ao de leve o som das suas mãos, a aquecerem-se uma à outra num ritual repetido. Com os olhos semicerrados e o rosto fechado, levanta-se e o volume do som sobe subitamente…Go Mick!, grita alguém ao seu lado, quebrando o gelo enquanto a quietude se desvanece. “Hoje tem que acontecer, cerra os dentes, vem jogar”. “Belarmino”, a música dos Linda Martini sobre o boxeur lisboeta eternizado por Fernando Lopes, vem-me à cabeça. Quarenta e cinco minutos mais tarde, depois de concretizada a sua vitória sobre Medina, finalmente ouve-se Fanning, dentro de água, num intenso grito de celebração, enquanto desce uma espuma em direcção à praia. Tem motivos para isso: vai chegar a Peniche com a liderança reforçada do circuito depois da primeira vitória do ano.

Le Penon, seis e meia da tarde. Doze horas, sete baterias e uma enorme vitória depois, fica a certeza que, na manhã daquele mesmo dia, a tempestade eléctrica ainda não tinha acabado. E a ressaca pode ficar para amanhã.

publicado por manuelcastro às 10:39
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