Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

O segredo está na massa

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É só como eu vejo a coisa;

 

se desconstruirmos o surf até à sua essência, o maior ingrediente que lá restará é “diversão”. Ninguém vai fazer surf se não souber que é divertido; ou melhor, até pode nem saber, mas é sempre por isso que vai fazer surf. E sim, pode ser o divertido sombrio, da vertigem do medo, ou o divertido solar, feliz e desprendido. Pode ser tudo isso e pode ser mais; pode ser tudo, aliás, mas é divertido. Surf é recreio e nós somos eternas crianças na dança da chuva salgada.

 

Percebi isso tarde. Ou melhor : até certa altura só percebi uma gota de água disso. É como aquela sensação de se ir descobrindo o verdadeiro significado do amor à medida que novas paixões acontecem; tudo o que se passou antes é colocado em perspectiva. Após anos e anos a ouvir histórias aldrabonas de vendedores de pranchas de surf sobre o assunto, era uma vez Keone Downing que olhou para mim e disse: “Surf é diversão”. Até lá, eu acreditava que ia ser um Kelly Slater tardio ou coisa assim. É verdade que com ondas épicas eu conseguia mais ou menos fazer algo parecido com surf - ah, aquela vez em 2003. De resto, convenhamos : eu fazia mais anti-surf do que surf. Só descobri isso com um novo, e definitivo, amor.

 

Corria o ano de 2011 e eu não corria um cazzo numa parede de onda. O meu amigo Mica, índio da praia de São Lourenço e shaper de mãos cheias, fartou-se depois de anos e anos a ver-me estragar ondas. Apresentou-me uma prancha estranha com um volume colossal, com opção de duas ou quatro quilhas, algo que à primeira vista diríamos ser inspirado nos anos ’70 porém com um toque vanguardista – no fundo, um regresso a uma história que nunca ninguém nos tinha contado. Comecei a andar ligeiramente melhor, sendo ligeiramente aqui uma palavra importante. Fiz uma, duas, três pranchas diferentes entre elas e diferentes de tudo aquilo que eu pensava existir. O meu único objectivo era divertir-me – fui conseguindo. Mais tarde consegui até fazer algo parecido com surf sem precisar de ondas épicas. Nunca serei um natural mas estou mais perto do que nunca de uma certa ideia de surf – da minha cena. Que é fazer surf e divertir-me. Não ser reflexo mas auto-expressão.

 

Lembrei-me disto tudo ao conhecer a história do “Tortellini : Walking on Broth”, do chef italiano Massimo Bottura. No Osteria Francescana, o seu restaurante em Modena, rompeu de forma assumidamente provocatória com os cânones tradicionais da “comida da avó” italiana, na qual, por norma, os tortellinis são servidos numa porção de quase dez por colher. No seu restaurante, para escândalo absoluto da città, Massimo passou a servir seis – apenas seis – num prato chamado “Tortellini : Caminhando para o Caldo”. Em “Chef’s Table” – lá no Netflix - o chef explica-nos que este prato é um regressar ao que se foi perdendo no processo de comer – comer por comer, diria eu - respeitando integralmente cada tortellini. Porque a tradição, diz Massimo, “não respeita os ingredientes” - no caso, o presunto de Parma e o parmesão.

 

Fazendo o paralelo, diria que a “comida da avó” do surf na Europa era a tradição maioritária e de raiz comercial das pranchas de três quilhas, estreitas e finas – tida como quase única. A pertença ao “surf” estava implicitamente plasmada nessa narrativa: a do Kelly Slater, do surf competição, das manobras, das revistas de surf, da prozada e claro, das histórias aldrabonas de vendedores de pranchas de surf. Era só uma certa visão mas prevaleceu por defeito e enganou o surfista comum. Enfim, ficámos de barriga cheia com um prato cheio de tortellinis.

Não pretendo diminuir ou menosprezar a importância do surf competitivo, dos grandes surfistas, da vanguarda técnica, da alta-performance, das empresas que vendem calções e muito menos das revistas de surf; nem de contrapor com uma visão pura e comercialmente imaculada dos “outros”. Mas terá havido um certo desperdício do potencial de “diversão” na Europa - e em Portugal - que não deve ser menosprezado, até porque ajudou a desformar surfistas. Basta olhar para as ondas incríveis que temos e o nível de surf inconscientemente miserável que é praticado.

Sim, um prato cheio de tortellinis vai muito bem mas abrir a cabeça para saborear meia dúzia deles “caminhando para o caldo” também. E isso é só o começo. Na pior das hipóteses, vai ser divertido.

Vai ser surf.

 

A série documental “Chef’s Table” está disponível no Netflix e não fui convidado para comer por nenhum dos chefs lá retratados.

publicado por manuelcastro às 09:53
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1 comentário:
De Anónimo a 11 de Setembro de 2018 às 16:58
Massimo Bottura ficaria satisfeito com esse texto.
Eu fiquei.

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