Quinta-feira, 16 de Julho de 2015

Perfeição

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Sigo no carro por um trilho de estrada que atravessa um campo imenso. Não há mais nada ali num raio de quilómetros – é mentira, passou por mim uma nórdica a correr, confirmei-o depois de olhar pelo retrovisor - se não o rasto poeirento de um carro à minha frente. Chegámos ao topo de uma falésia com mais de oitenta metros. Sopra um off-shore ciclónico no fim do mundo e lá em baixo quebram umas ondas aparentemente perfeitas e imaculadas como se este tivesse acabado de começar. Digo aparentemente porque já se sabe: podia ser mais assim ou mais assado. Sou doutorado nisso, aprendi com as ondas da Ericeira e com o Seinfeld. Um pequeno grupo reúne-se e um simpático casal austríaco atenta na descrição de gente mal-habituada: está demasiado off-shore. Está, portanto, demasiado perfeito. Não está bom porque está demasiado perfeito. Quer dizer: podia estar perfeito se estivesse menos perfeito. Podia, enfim, estar mais perfeito. Sem dizer nada, concordei. Prefiro ir ver como está o mar a 100 km dali.

Foi só mais uma vez e por isso, enquanto me dirigia ao próximo lugar quem sabe perfeito não fiquei a pensar muito no assunto. Não evitei, no entanto, pôr-me no lugar daqueles tipos do centro da Europa, de um país sem mar, que chegados a um dos mais magníficos cantos do mundo conhecido e desconhecido entraram num insignificante universo de detalhes que transformam um momento possivelmente extraordinário num tratado sobre perfeição que os deixa com um ar de que o knodel não estava muito bom. Sim, dar tudo como adquirido é um mau-começo e viver num país como uma costa destas não ajuda. A culpa não é nossa, isto foi-nos apresentado desta forma: um rectângulo a olhar para o mar. A problematização é natural. Que fazer perante isto tudo?, é a questão e é daqui que nascem os dogmas da perfeição. Mas vão acabar, prometo. Agradeço a lição a quem, sem querer, a ofereceu. Não esquecerei esta manhã de off-shore ciclónico no fim do mundo. Vou fazer um plano e, definitivamente, mudar. Aliás, começa agora, aqui mesmo.

Uma coisa é certa. Da próxima vez vou parar o carro e perguntar à nórdica se não quer ir comigo beber uma Sagres ou assim. Ela era perfeita.

 

publicado por manuelcastro às 18:58
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