Segunda-feira, 17 de Julho de 2017

Steph

Se tivéssemos a possibilidade de, a partir de uma daquelas sondas Voyager que transportam os sons do Planeta para lá do sistema solar, projectar no espaço uma ideia visual do que é o surf tal como é hoje tendo aqui chegado assim - portanto, tal como já foi e como foi passando a ser - teriam que ser os instantes de Stephanie Gilmore em "Spirit of Akasha" de Andrew Kidman, que o génio criativo australiano volta a explorar, de forma obssessiva, no livro "Single - Studies of Movement".

Nos pés de Steph está uma single-fin desenhada por Dave Parmenter. Esta sessão em Greenmount cristaliza o que é o surf. Steph está com o mar e com as ondas. Não há avanços nem recuos; não há excesso nem minimalismo, está no compasso, está pleno e está livre. Não se esforça. Está intimamente ligado a tudo isto de uma forma naturalmente cósmica, ordenando por segundos todo o caos do Universo e criando ali mesmo uma obra de arte sobre o assunto; e àquele momento exacto, àquela onda, àquele pedaço de vida que nasceu lá longe e que vai correndo à sua frente até nunca mais acontecer.

É lindo de uma forma simples e maravilhosamente despretensiosa. A dançar entre imagens e gerações está também Michael Peterson, com uma Simon Jones - de 1972 para 2012.

 

 

"Quando o MP era mais novo tinha uma graça felina na onda, talvez fosse a sua abordagem ou o modo como o seu corpo se expressava", diz-me Andrew Kidman, autor do filme, sobre essa cena.

Ao sobrepor Michael Peterson à elegância sincrónica de Steph, Andrew presta homenagem aos dois e partilha connosco um incomum – porque desprendido, já que não está a vender calções - respeito pelo passado; o passado de verdade. Aliás, é exactamente isso que “Spirit of Akasha” faz, ao celebrar os 40 anos “Morning of The Earth”. Essa ligação ao passado também é surf e também é aqui e agora; parecendo que não carregamos essa memória colectiva connosco cada vez que vamos ao surf. Aqui está espalhada por tudo quanto é frame.

No mesmo filme, ao vermos Fanning a destruir tudo com uma outra single-fin - “num dia de ondas más”, afirma Kidman para justiça de Mick - fica mais evidente, por contraponto, que a graciosidade de Gilmore representa o surf de forma perfeita. Quase que chega a dar a ideia que o surf é algo feminino.

"Coloquei essas sequências deliberadamente no filme para mostrar diferentes abordagens às ondas; não tenho a certeza se é algo masculino ou feminino. A Steph tem uma elegância incrível e pessoalmente acho que é por ser mulher; como uma mulher a fazer ballet. Acho apenas que é diferente. Acho que transcende o surf."

Quando a forma em movimento supera o que é explicável e quando paramos, como que surpreendidos, num indizível silêncio contemplativo porque tudo nos parece tão natural, sim, tudo isto pode ser mais do que surf em toda a sua plenitude. Mas, antes de mais, isso é exactamente aquilo que Steph representa de forma perfeita.

 

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Foto : Roxy Press

 

publicado por manuelcastro às 11:09
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