Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

Stuck

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Uma fotografia, a preto e branco. E tanto por contar. Ribatejo, finais dos anos 80. Um barracão, um quarter pipe, um skate, dois irmãos; epígrafes, símbolos e logótipos a cheirar a mar; mas tão longe do mar, e de tudo. Portugal ainda tinha esperança e a velha televisão lá de casa, também ela a preto e branco, só tinha dois canais. Bruno Garrudo estava noutra; já sonhava muito para além daquilo que os seus olhos viam: com o mar, com as ondas e com o surf, em que corria linhas imaginárias e intermináveis depois de folhear as raras mas preciosas revistas de surf disponíveis na época. Dali para a realidade, feita no caos dos subúrbios de Lisboa, onde Bruno se aprisiona em Stuck e liberta a sua identidade de então e de sempre no cinzento da cidade. A street art, então em fase pré-histórica, e longe da actual aprovação institucional, foi a primeira das suas intervenções e a sua forma de expressão artística (quase) predilecta – precedida pelo surf, que aos poucos, e finalmente, passou das páginas de revistas para o culminar arrebatado de longas viagens por entre a cidade para as praias à volta de Lisboa. Uma aventura, à escala.

Uma escala que ao longo dos anos se foi ampliando, tanto quanto os horizontes que foram fascinando Stuck. Viagens a destinos remotos e o contacto com novas culturas trouxeram, para além de enriquecimento pessoal, novas formas de expressão, como a fotografia e a escrita. E se a street art tinha surgido como consequência de uma experiência urbana castradora, a fotografia apareceu, nas viagens, num contraste perfeito, como resultado da mais pura liberdade. Longe de ter abandonado a sua postura activista, Stuck reconhece que hoje os lugares intervêm mais nele do que ele nos lugares. O paradigma não mudou: este é apenas o reconhecimento humilde do equilíbrio de quem encontrou o seu caminho. No caso de Stuck, um trilho feito ao seu ritmo, à sua maneira, e partilhado, longe do histerismo instantâneo da era digital, de uma forma tão discreta quanto preciosa. Com a sua presença, palavras, e arte, sempre com tanto por contar. Como aquela fotografia, a preto e branco.

Texto Pré-Publicado no livro “Deambulações”, de Bruno Garrudo

publicado por manuelcastro às 18:59
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