Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

Um outro tempo

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Devíamos estar no final dos anos ’80, quando as cores eram muito mais vívidas do que hoje e ainda me correm na memória salpicando um filme de película com um ligeiro grão. Era um país onde havia uma certa esperança no ar, antes do exército de donos disto tudo dar cabo de tudo isto. Os tempos eram como o país: livres. Num daqueles Levantes, na Fábrica, deslizava com um colchão que se agarrava de lado. Depois foi mesmo com o que estava mais à mão; uma “Morey Boogie” onde só me queria meter em pé. Cheguei à Ericeira e o Tó disse-me que aquilo não tinha piada nenhuma. O Tó era o meu vizinho do lado e fazia uma coisa que os mais velhos faziam: surf. Passado um tempo – que na altura era mesmo um tempo – juntei dez contos e fui comprar uma prancha de surf à Costa da Caparica ao meu amigo Manel. Vim com ela de autocarro, até Lisboa, e depois de metro, até casa. Acabou por chegar à Ericeira, não me lembro bem como. A partir daí, “La Messa è Finita”.

É possível que tenha demorado um tempo – que na altura era mesmo um tempo – a experimentar a prancha. É possível que tenha demorado um tempo – que na altura era mesmo um tempo – a perceber como é que funcionavam as coisas nessa história das ondas e dos surfistas. É possível que tenha demorado um tempo – que na altura era mesmo um tempo – a sentir-me um surfista a sério. Demorava, seguramente, um tempo – que na altura era mesmo um tempo – a ir de casa até à praia a pé e fazer o caminho de volta só para fazer umas espumas. É possível também que entretanto tenha dado cabo dos planos que tinham para mim, e de vários meus. Isso não demorou, aliás, qualquer tempo. Desde que houvesse mais uma vez de “só mais uma e saio”. Só mais u-m-a.

Conto o meu tempo de surf – que é sempre um tempo – em forma de temporadas e, sobretudo, memórias. Uma colecção delas, cheia de ondas, pessoas e lugares. E sempre, sempre, acompanhado pela banda sonora daquele silêncio confortável com o olhar no horizonte depois de sair da água. Afinal ainda dava para mais uma...

Esqueci-me de muita coisa desde essa altura em que as cores eram muito mais vívidas do que hoje e ainda me correm na memória salpicando um filme de película com um ligeiro grão. No surf, nem uma. O que já não é nada mau quando um tempo é mesmo um tempo.

Obrigado, António.

publicado por manuelcastro às 18:57
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